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Psicologia: Porque Batman é popular?

mídia, sociedade
todo livro sobre o "Caped Crusader" precisa sim ter uma capa legal.

todo livro sobre o “Caped Crusader” precisa sim ter uma capa legal.

Recentemente li Batman and Psychology: A Dark and Stormy Night; um livro excelente que trata dos aspectos psicológicos do personagem, seus vilões e mitologia.

Creio que não existe versão em português do livro ainda, o que é uma pena – não consigo enfatizar o quanto gostei dele, e o quanto o recomendo para qualquer um que tenha um interesse em psicologia, mesmo que não seja um grande fã do homem-morcego. Desde que você tenha o mínimo de familiaridade com o personagem (tipo não ficar surpreso com o fato dos pais do bruce morrerem), o livro funciona muito bem como uma introdução a conceitos psicológicos e psiquiátricos usando exemplos simples e notáveis. E é simplesmente uma leitura muito, muito cativante.

Ao longo do livro, o autor explora os vários perfis psiquiátricos dos personagens, e suas variações ao longo das diferentes histórias e interpretações ao longo dos tempos. Isso é maravilhoso, e qualquer tentativa minha de discutir estes perfis não fará jus ao trabalho excelente (e completo – heróis de comics são infames pelas suas N versões diferentes e reboots e inconsistências, e o autor as navega muito bem), então não vou tentar. Ao invés disso, quero falar de algo um pouco mais simples – por que Batman é tão popular?

Três pontos respondem esta pergunta, creio – e irei os detalhar em seguida:

  • é um conto essencialmente psicológico,
  • representa fantasias de poder intrínsecas ao ser humano,
  • fornece uma janela para abordar questões antropológicas, morais e sociais.

O grande conto psicológico

GothCard

o momento que justifica a existência do filme Batman Forever. bom, isto e os trocadilhos do Mr. Freeze. he’s so cool.

Batman é o Batman em função de sua psicologia, e este é o ponto mais crucial exposto pelo autor.

Bruce Wayne (spoiler: ele é o Batman!) não possui super poderes, apesar de possuir rios de dinheiro e eu francamente achar que dá na mesma. Isso quer dizer que tudo o que acontece com ele é algo puramente psicológico e social – ele é moldado pelo mundo ao redor e pela forma que reage à ele. Isso dá ao personagem grande profundidade, fazendo a magia de deixar todos os seus comportamentos compreensíveis e familiares em algum nível, independente de você concordar, apreciar ou os entender completamente.

Será que é correto do Batman permanecer obcecado com sua noção de não matar, mesmo quando os vilões se aproveitam disso para causar mais estrago? Será que faz sentido ele não usar armas? O quão próximo ele é dos vilões que combate? Como ele seria diferente caso não tivesse passado pelo trauma da morte dos pais? Como ele poderia ter canalizado seus sentimentos sobre de outras formas? Como as coisas seriam diferentes se ele não fosse podre de rico (resposta: ele seria o Demolidor)? A coisa toda de morcegos não é meio ridícula? O quanto sua falta de conexão social influencia no seu comportamento? Existem N respostas e abordagens para cada um destes itens, mas o que importa aqui é o fato destes questionamentos serem possíveis.

Da mesma forma, os vilões de Batman também são complexos e em geral não possuem superpoderes – todos eles são caracterizados por possuírem suas próprias neuroses e eventos traumáticos.

Conflito em Batman é um conflito de personalidades, não de poderes. Ora, o Curinga é pouquíssimo interessado em realizar violência física contra o Batman. O conflito entre os dois é um conflito de personalidades e crenças – fundamentados em seus respectivos traumas e experiências de vida – com o Curinga constantemente pressionando e testando as partes mais sombrias da ideologia e personalidade do Batman, em uma tentativa de perverter ou destruir sua integridade moral e psicológica.

E isso é interessante pra caralho.

O poder da escolha

freud

se toda expressão criativa é uma forma de catarse do libido, Bruce escolhe ser Batman para evitar ser um predador sexual incontrolável.

Repetindo, o Batman não possui poderes. Enquanto a maioria dos heróis são aliens (Superman) ou passam por uma experiência que os confere superpoderes (Homem-aranha), o Batman se torna um herói por escolha. Logicamente que ele preferiria não ter seus pais brutalmente assassinados, e não teve escolha nisso – mas é por escolha e mérito dele que se torna um símbolo, que adota o morcego como parte integral de sua imagem, que treina extensivamente, que se torna um vigilante, que não mata, etc.

Bruce é o mais humanista dentre os heróis, não no sentido de seu comportamento ser “humano” ou similar, mas no sentido de apelar para uma um antropocentrismo fantasioso: de que o homem possui poder sobre tudo ao seu redor, de que através de sua vontade ele pode se tornar o que quiser, de que coragem e sagacidade bastam para lutar contra alienígenas superpoderosos, de que é possível permanecer incorruptível mesmo sendo um criminoso, de que pode-se estar certo apesar do repúdio da sociedade, etc.

Como não gostar do Batman quando este representa todas as nossas fantasias mais íntimas de poder; quando ele ilustra visões nas quais nos agarramos em?

A batalha antropológica

Pode-se argumentar que outros personagens – principalmente em suas histórias mais recentes – possuem complexidade psicológica considerável. O Homem-aranha, por exemplo, ganhou cada vez mais profundidade e relevância neste aspecto, com seus conflitos internos com responsabilidade, identidade e seus muitos papéis na vida sendo explorados com mais destreza. Mas o Batman não para por aí – enquanto as histórias do Homem-aranha, por mais complexas que sejam, continuam sendo pessoais, os contos do Batman frequentemente ilustram e debatem questões antropológicas, sociais e políticas.

Os personagens de Batman não são somente suas personalidades, históricos psicológicos e objetivos – eles possuem ideologias que permeiam todos os seus atos; como a crença do Curinga de que humanos são mais ‘primais’ do que parecem e que basta ‘um dia ruim’ para a fachada de civilização desaparecer, ou a ideologia de equilíbrio e destruição da Liga das Sombras, ou a crença em caos e indiferença do Duas-Caras. Mesmo os vilões mais simples, como Charada – que em geral visa somente masturbação intelectual e atenção – frequentemente causam questionamentos mais complexos através das consequências de seus atos, ou as reações sociais ou do Batman sobre estes.

The+Joker+One+Bad+Day+The+Killing+Joke+Quote

Eu demonstrei que não há diferença entre eu e o resto do mundo! É necessário somente um dia ruim para reduzir o mais são dos homens à loucura. Esta é a distância entre eu e o resto do mundo – um mero dia ruim.

E no final das contas, apesar da natureza ‘episódica’ de cada conflito do Batman contra os vilões, ele luta uma batalha fanática, pessoal e subjetiva para “salvar Gotham City”.

O conflito do Batman e Curinga me remete bastante ao episódio bíblico no qual Satanás tenta Jesus no deserto (Mateus 4:1-11… sim eu citei a Bíblia numa conversa sobre Batman): é um conflito psicológico fascinante entre duas figuras, moldadas pelas suas experiências, medos e perspectivas, e que (apesar de teoricamente ser uma experiência teológica) também evidencia o poder da escolha e força de vontade. É também mais do que isso – as “armas” do conflito são psicológicas, mas o que está em xeque é a percepção dos personagens sobre a natureza humana e os méritos e destino da humanidade como um todo; há muito em jogo ali, os personagens claramente tem seus ‘lados’ e a narração em si não é imparcial.

Este terceiro aspecto – a abordagem antropológica – é a cereja no bolo, um diferencial interessante que apesar de não ser de forma alguma exclusivo da série, é bem executado e em sinergia com os outros atributos, a deixa mais única. Uma vaga comparação:

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Fechando

Misturei um pouco aqui os argumentos do autor com os meus próprios para passar uma visão mais coerciva. Se quer algo mais neutro e fundamentado, vá ler o livro.

Vale enfatizar que não estou argumentando que estes pontos fazem do Batman o melhor herói – não é uma competição*; estou somente tentando explicar o observável e indiscutível fenômeno da popularidade do personagem, como feito pelo autor.

Possivelmente farei uma review mais completa do livro em breve.


O Desgraçado

filosofia

Eu sou ateu.

Fico surpreso com como pessoas ao meu redor podem se surpreender com esta revelação – creio que meu “bom comportamento” e grande interesse em religião me fazem parecer um bom católico; o que eu consigo compreender – tendo convivido com muitos católicos ao longo da vida, um observador externo pode sim concluir que meus comportamentos são mais condizentes com a fé do que os da maioria. Mas isso é outro tópico – voltando: eu sou ateu.

Alguns anos atrás, a súbita descoberta do meu ateísmo deixou um colega estarrecido, e o seguinte diálogo aconteceu:

Colega: Mas você nunca sentiu a presença de Deus? Em algum lugar, em algum momento?
Eu: Não.

Este “Não” foi uma resposta rápida e impulsiva, mas a pergunta me corroeu ao longo dos próximos dias. Me fez notar que não, de fato eu nunca tinha sentido a presença de Deus, e não por falta de ter tentado.

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Variáveis Globais em Coffeescript/Meteor

desenvolvimento

CoffeeScript é uma adorável linguagem que gera código JavaScript. Ela na prática incorpora algumas funcionalidades interessantes de Ruby, Python e similares, permitindo a escrita de JavaScript de forma mais ágil e adequada aos tempos modernos.

Uma das muitas boas práticas adotadas pelo CoffeeScript é que cada script é isolado. Variáveis e funções em um arquivo não podem ser acessadas por outro – ou seja, elas não são criadas no escopo global. O que é ótimo pois evita a ‘poluição’ do espaço global de nomes, mas é um problema caso deliberadamente queira compartilhar algumas variáveis entre múltiplos arquivos.

A inconveniência é notável ao usar Meteor, o que pode ser especialmente confuso se estiver começando a usar este framework agora: muita coisa simplesmente não vai funcionar, pois variáveis que deveriam estar sendo criadas no escopo global – como Collections do Mongo – estão encapsuladas. Encontrei várias formas de resolver isso.

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Proporção Inversa Ofensividade-Frequência

sociedade

A lei da Proporção Inversa Ofensividade-Frequência (sim, eu inventei o nome) descreve que:

Quanto menos frequente é a ocorrência de um evento ofensivo em nosso ambiente, mais ofendidos ficamos nas raras ocasiões nas quais ele ocorre.

 

Creio que podemos observar este princípio em ação ao longo da história de forma bastante recorrente e confiável, seguindo o roteiro:

  1. um hábito era amplamente aceito em uma sociedade;
  2. a sociedade avança de forma que, subitamente, o hábito se torna obsoleto e desnecessário;
  3. um número progressivamente maior de pessoas deixa de praticar o hábito;
  4. os indivíduos não-praticantes repudiam fortemente os que ainda praticam.

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Física em Interstellar

física, mídia

Interstellar é muito interessante e  provocante – você certamente fica pensativo sobre; seja pelos aspectos fascinantes da física quântica demonstrados, seja pelo drama, ou ainda pelo realismo pertubador do cenário “apocalíptico” da Terra.

Como em todo filme de ficção científica, os nerds de tocaia rapidamente irão apontar as imprecisões científicas dele. Vou contribuir com minha parte – mas resumidamente:

O filme é muito bem embasado cientificamente. No máximo, ele exagera ou omite uma coisa ou outra pelo bem da narrativa.

 

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Jogos, Sexismo e GamerGate

jogos, sociedade

Existem um monte de pessoas sexistas na internet que ficam por aí atacando mulheres? Sim.
Algumas destas pessoas se designam como parte do GamerGate? Sim.
Em função disso, gamers e sua comunidade são em geral sexistas? Não, pelo menos não mais que todo mundo.

Gamergate é uma controvérsia/movimento sobre sexismo, agressão e corrupção jornalística na cultura de jogos. Recentemente, após um período de relativo silêncio, a deselegância com membros femininos da comunidade tem recomeçado. Isso acaba gerando uma impressão bastante negativa sobre a comunidade de jogadores, e muito tem sido dito sobre isso. Não é minha intenção negar a existência dos problemas, ou desprezar suas consequências ou a indignação ante estes; mas acho que a natureza demográfica dos gamers diz mais sobre suas predisposições sexistas do que estes episódios específicos.

Jogos não são mais ofensivos ao feminismo do que livros ou filmes; e são tão populares atualmente que qualquer tentativa de generalização – “gamers são X” é o equivalente de dizer “pessoas são X”. Neste caso sim, boa parte das pessoas é sexista; logo, gamers o são. Na verdade, possivelmente são um grupo menos sexista que a sociedade em geral, por ser bem dividido sexualmente (52/48% homens/mulheres), e mais jovem que a população em geral. Há uma correlação forte entre idade e feminismo (mais do que com gênero – ou seja, homens jovens são mais feministas que mulheres de meia-idade), então acho bem seguro dizer que o “gamer médio” é menos sexista que a “pessoa média”.

De fato, isso é atestado pela polêmica gerada por estas questões sexistas – gamers tendem a ser mais ofendidos por elas do que o público em geral.

Jogos também tem uma chance bem mais razoável de utilizarem personagens femininos adequadamente. A esmagadora maioria dos filmes falha no Bechdel Test, mas um número razoável de jogos passa; e alguns até possuem protagonistas femininos. Além disso, como jogos não necessariamente são narrativos, é fisicamente impossível que alguns sejam sexistas – certamente Journey, Demon’s Souls ou Tetris não passam no Bechdel Test, mas isso não me parece uma preocupação válida.

Para mais informações demográficas sobre gamers, recomendo este documento.

 


MySQL e WordPress no Openshift

desenvolvimento, wordpress

Openshift é uma excelente plataforma para deployment de aplicativos web, da Red Hat. Caso não conheça, recomendo que dê uma olhada – o plano gratuito permite a criação de três aplicativos com 1 “gear” pequeno em cada.

Quando utilizando MySQL (ou qualquer outro banco de dados) no Openshift, geralmente se faz necessário configurar as informações de acesso deste em algum arquivo, para que o aplicativo consiga utilizá-lo.

Neste momento, é bom lembrar que o Openshift deixa as informações de acesso destes bancos de dados disponíveis como variáveis do sistema. Usar estas variáveis do sistema para configurar seu aplicativo é em geral mais prático do que inserir estas credenciais manualmente em arquivos de configuração.

No WordPress

define( ‘DB_NAME’,     $_ENV['OPENSHIFT_MYSQL_DB_NAME'] );
define( ‘DB_USER’,     $_ENV['OPENSHIFT_MYSQL_DB_USERNAME'] );
define( ‘DB_PASSWORD’, $_ENV['OPENSHIFT_MYSQL_DB_PASSWORD'] );
define( ‘DB_HOST’,     
$_ENV['OPENSHIFT_MYSQL_DB_HOST'].':’.$_ENV['OPENSHIFT_MYSQL_DB_PORT']
);

Problemas?

Caso isso não pareça estar funcionando, note que o Openshift precisa reiniciar o gear do aplicativo após o “cartucho” com o banco de dados correspondente ser adicionado; pois ele exporta estas variáveis de sistema no ato da inicialização. Reinicie seu gear e as variáveis estarão disponíveis para uso.